segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Jeitinho brasileiro

Por definição: o “jeitinho” brasileiro representa, em uma expressão de fácil entendimento, a malandragem histórica do nosso povo. Malandragem com a qual temos contato desde pequenos e ouvimos constantemente nos meios de comunicação e, indiretamente, presenciamos nos atos das pessoas. Há quem tenha orgulho do “jeitinho”, que por ser tão comum, até prefiro omitir as aspas. No entanto, a idéia do malandro está associada à esperteza, como se houvesse algo de esperto em dizer “odeio político ladrão, mas se estivesse no poder, também roubaria”. O cidadão heroicamente afirma que tem orgulho de ser brasileiro e por isso naturalmente faz uso do jeitinho, mas não percebe que esta “marca nacional” é uma das impulsoras do nosso regresso.

Esses dois últimos anos foram marcados pela corrupção explícita. A dúvida que fica é se vamos assistir a mais momentos corruptos ou se veremos esse câncer se extinguir. De fato, a corrupção não vai acabar, ela é inerente a todos os povos. E não é difícil de imaginar que não são apenas nós que somos ‘espertinhos’. No mundo, há muitos outros povos que também seguem a mesma linha de conduta individualista que seguimos, todavia há lugares onde isso é minimizado. Por quais motivos? Talvez uma melhor eficiência da Justiça ou uma boa consciência coletiva. É difícil definir porque o jeitinho é um fantasma abstrato que nos rodeia, mas traz problemas bem concretos.

Na prática, o jeitinho é uma maneira da pessoa se colocar entre o certo e o errado. Ela sabe que o que está fazendo não é moralmente correto, mas perdoa a si mesmo porque também sabe que estará saindo na vantagem. Assim, qualquer transgressão é justificada, e a pessoa vai vivendo seguindo a Lei de Gérson: “O importante é obter vantagem em tudo”.

Aquele velho papo de que os valores estão invertidos – ou subvertidos – fica ainda mais presente. Qualquer ato que deveria servir como exemplo de moralidade torna-se inútil, pois a sociedade chega a ponto de ser tão materialista que ignora a ética, a moral e outros valores que não são palpáveis. A partir daí, o convívio social vira algo desregrado, e não estou falando de leis, estou falando de sensibilidade coletiva. Muitas leis não seriam necessárias se as pessoas tivessem a noção dos seus limites, obedecendo a liberdade dos outros.

A diferença entre o jeitinho brasileiro e o “jeitinho internacional” é que agregamos essa malandragem como característica cultural do Brasil, assumindo uma postura diferente e orgulhosa de detonar os outros, que somos nós mesmos. E a política? Nesse caso a situação piora quanto notamos que os governos – ou detentores do poder, de uma forma geral – são tão desregrados quanto nós. Aí, o mau exemplo da política torna a sociedade um caos, onde as pessoas sacaneiam por uma questão, digamos, de sobrevivência moral.

Considerar que só porque diversos políticos roubam ser uma explicação razoável para exercer o jeitinho, mesmo em coisas menores do que superfaturar uma ambulância, é mergulhar de cabeça em um círculo vicioso do qual ninguém quer intervir, todos querem participar e muitos sofrem com isso.

Ter orgulho do jeitinho é, sem mais, aceitar toda a situação presente que adoramos criticar. Sei que roubar uns milhões é diferente de subornar um policial, mas ambas as situações estão no mesmo patamar ético, partiram de uma mesma iniciativa extremamente egoísta. Viver na surdina, burlar as regras, fazer vista grossa às normas e muito mais podem até dar um gosto de aventura, entretanto deve-se perceber que exaltar o individual em detrimento do coletivo é uma forma ignorante de suicídio. Sem notar, a sociedade vai cortando seus pulsos de pouquinho em pouquinho. Numa morte lenta e deliciosamente terrível.

Adriano Senkevics escreve para o Letras Despidas

19 comentários:

  1. blogspot eh outra coisa neh?? deur me livre de tentar outros, jah dei tanta cabecada q agora eu nao largo o blogspot.
    Passei p deixar um beijo e dizer q to sumida mas to aparecida tbm :-)

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  3. Amigo Adriano,

    Achei que havia desaparecido! Como é bom entrar no Críticas e achar teus escritos. Sabe muito bem que compartilho em todos os sentidos de sua idéia proposta no artigo. Devemos ser coerentes com o que afirmamos por aí.

    Um forte abraço amigo. Excelente texto !

    ResponderExcluir
  4. Gooostei do artigo, muito criativo. Parabéns Adriano, você escreve muito bem :)

    ResponderExcluir
  5. Texto ótimo! Parabéns!!

    ResponderExcluir
  6. Parabéns pelo artigo!!
    Concordo plenamente com tudo o que foi dito!! Se queremos justiça, temos que agir como tal!!!

    PARABÉNS!!!

    ResponderExcluir
  7. Cara você um gênio.

    Seu artigo ficou ótimo ,parabéns!

    ResponderExcluir
  8. esse texto foi mais uma uma forma indireta de nos auto criticarmos ou apenas de reconhecimento das culturas infiltradas em nossas vidas através da banalidade dos seus atos vistos como normais, normais passar o farol vermelho, normal descolar um atestado falso pro meu "trampo", normal fumar no meu condominio mesmo com a lei em vigor, comprar cd pirata até os menos perdoáveis como a corrupção, o desvio de dinheiro,a falsidade ideológica etc...Hoje a ética está morta juntamente com o pensamento coletivo e a moral civilizadora além.

    ResponderExcluir
  9. Eu sinceramente não sei se temos condições de reverter isso. Na verdade, acho que somente nós queremos mudança.

    abraços.

    ResponderExcluir
  10. Se o "jeitinho brasileiro" está tão em voga, penso que deveríamos utilizá-lo para a reta formação da consciência, da maturidade da pessoa enquanto ser livre que é capaz de não somente pensar em si, mas no coletivo. Pensamentos e atitudes diferentes do que são propostos, podem fazer toda a diferença.

    ResponderExcluir
  11. Moço,parabéns...Seu texto está muito bom!
    Esse tema está sendo muito estudado no mundo todo e em minha escola,e está sendo de grande ajuda!

    Beijosss...e continueee!Parabénss

    ResponderExcluir
  12. Nossa muito obrigada por ter colocado um texto tao complexo e bem explicativo, gosto muito quando procuro algo e encontro uma coisa bem explicada e completa, com tudo o que eu preciso.Adriano voce esta de parabens. Adorei, esse texto e escreve mais.
    Obrigada

    ResponderExcluir
  13. Olá,seu bolg está muito bem feito e fico feliz que este espaço proporcione a reflexão,para temas extremamente importantes para a construção do pensamento humano.

    ResponderExcluir
  14. Obrigado pela participação de todos no comentário. Temos de agradecer realmente ao Adriano por essa obra prima de artigo. O blog vem sido mantido nesse intuito. De trazer aquela reflexão a mais para todo que queiram.

    grande abraço e obrigado.

    ResponderExcluir
  15. Parabéns pela coragem de abordar esse assunto de maneira clara e precisa. Isso nos leva a crer, que ainda há tempo de recomeçar. Recomeçar para melhorar, para mudar a sociedade que aí está.
    Sejamos nós, os construtores desse recomeço.

    ResponderExcluir
  16. A filósofa Fernanda Carlos Borges em seu livro A Filosofia do Jeito, aborda o jeitinho de outra forma. A expressão jeitinho apareceu na primeira metade do século XX, com o processo de modernização industrial do Brasil, quando o brasileiro, acostumado com a vida social apoiada nas relações pessoais, viu-se repentinamente transformado em indivíduo. O indivíduo não tem jeito: os critérios de relação social entre indivíduos estão apoiados na imparcialidade. O jeito do corpo importa nas relações com o caráter afetivo. Para o indivíduo, o importante é a autonomia preservada pela imparcialidade normativa. A grande mídia trabalha com a idéia de que somente o indivíduo imparcial será capaz de nos “levar para frente”. E tudo que acontece de errado nas nossas instituições privadas ou políticas (corrupção, suborno, rabo preso, etc.) é tratado como culpa do jeitinho, que não é uma prática “moderna” e revelaria nosso atraso. No entanto, a especificidade do jeitinho é priorizar a afetividade em algumas circunstâncias, apesar da norma. O jeitinho não é conseqüência de um “atraso” por não sermos indivíduos imparciais. Ele envolve uma outra visão de homem e organização humana. Só damos um jeitinho para quem sabe pedir com um jeito: com humildade, simpatia, urgência diante de uma imprevisibilidade. Diante de um jeito superior ou arrogante não damos um jeitinho, invocamos a lei. Portanto, ele revela um critério ético e uma axiologia sobre um modo de ser no mundo: este modo de ser aceita a participação da imprevisibilidade, da fragilidade, da afetividade e da invenção dentro das organizações.

    ResponderExcluir
  17. Sua definição foi excelente. Ajudou-me muito.

    :)

    Juliane - http://juh-enjoyyourlife.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  18. o jeitinho brasileiro é uma cituacao que nao deveriamos sintir orgulho mas sim vergonha essa tal lei de gerson e um mal exemplo para crianças que vam fazer uma simples pesquisa e aprende uma coisa tao vergonhasa que nem essa !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    ResponderExcluir

As mensagens aqui expressas são de inteira responsabilidade de quem as escreve. Sinta-se em casa e deixe seu comentário: