Qual é o salário de um deputado no Brasil? Sabe-se é alto, não só em relação a população brasileira como também em relação ao mundo, como se o Brasil fosse capaz de suportar tamanha demanda desnecessária e totalmente concentrada.
Um deputado federal recebe, após o último aumento, R$ 16.512,00 em valor bruto, que, descontando o Imposto de Renda, em torno de 27,5%, o valor líquido gira por R$ 11.971,20. Além deste valor, os deputados recebem um auxílio-moradia de R$ 3.000, uma verba indenizatória, para gastos variados como combustível e TV a cabo, de R$ 15.000. Eles também têm uma ajuda para despesas postais e telefônicas de R$ 4.268,55 e mais uma verba para transporte aéreo de, no mínimo (mas pode ser bem maior), R$ 4.253,91. Ainda tem um dinheiro destinado para o pagamento de seus assessores que equivale a R$ 50.815,62. Não foram contabilizadas as despesas médicas, o direito a publicações, o material de escritório e as despesas com a manutenção da câmara, todas reembolsadas.
Cada deputado mensalmente embolsa, portanto, pelo menos R$ 98.728,08.
Isto tudo sem contar o dinheiro roubado pelos políticos, o dinheiro desperdiçado, desviado para outros fins, desaparecido, ‘encuecado’…
Pensando em um parâmetro federal, há 513 deputados e 81 senadores, somando 594 representantes do Poder Legislativo. No total, temos 21 mil funcionários e assessores que consomem mais de R$ 4,5 bilhões anuais (isto é, R$ 4.500.000.000,00) dos cofres públicos, ou seja, do nosso dinheiro. Isto tudo para fazer o serviço medíocre que eles fazem, nos únicos três dias de trabalho durante a semana (de terça-feira a quinta-feira).
Vamos analisar a situação da massa trabalhadora do Brasil. Nosso país é um dos piores quando o assunto é distribuição de renda. Já chegou a ficar em último na lista mundial, ou seja, mais concentrado do que Serra Leoa e outras nações bem mais pobres que nós. Apenas 1% dos mais ricos detêm a mesma parcela de renda equivalente dos 50% mais pobres. Mais de ¼ da população urbana não tem acesso ao saneamento básico, aproximadamente 7 milhões vivem em favelas ou assentamentos, apenas 18% dos jovens estão matriculados no ensino superior, a média de anos de permanência na escola é 6,1…
Os trabalhadores, que honestamente trabalham de, no mínimo, segunda-feira a sexta-feira, não recebem todos os adicionais para arcar com despesas de telefone, casa, combustível, energia, transporte, assessoria etc. Muito pelo contrário, tem sua renda tomada pelo estado em 41,5%, somando a quantidade de impostos e contribuições diretas e os impostos embutidos em bens e serviços. Isto significa que de janeiro a maio, em um ano, é como se o trabalhador suasse a camisa apenas para dar dinheiro ao estado. Em suma, trabalha de graça.
Pesquisas realizadas em 2002 mostraram que da população brasileira, 26,77% possui uma renda mensal entre R$ 500 e R$ 1.000; 21,67% entre R$ 250 e R$ 500 e 18,24% abaixo de R$ 250. O resto, que corresponde a menor parte (33,32%), se divide entre classe média alta (renda acima de R$ 5.000), classe média média (entre R$ 2.500 e R$ 5.000) e classe média baixa (entre R$ 1.000 e R$ 2.500) que, por sinal, predomina entre os outros dois tipos de classe média.
O que se dá para concluir de tudo isso?
Com todos esses benefícios dados aos nossos líderes (dá até nojo chamá-los assim), deveríamos estar bem melhor. Não precisaríamos pagar escola particular, ter plano de saúde para hospital privado, gastar com segurança própria etc. Mas não… o estado não nos fornece praticamente nada, nem a vontade de continuar no país, pois a ilusão de que um dia isto melhorará vai se apagando a cada novo escândalo que vemos acontecer.
Se todas as reformas necessárias para um melhor país vão passar pela aprovação deles, inclusive a redução de tributos e diminuição de seus salários, o que podemos esperar? O que podemos fazer? Se existisse uma barreira entre o bem e o mal, seria muito mais fácil lidar com os oponentes. Mas eles estão aqui, entre nós, o que podemos fazer para mudar se são eles os maiores responsáveis por mudanças?
Adriano Senkevics escreve para o Letras Despidas.