Postei há pouco no Twitter um assunto que ocorreu novamente na escola onde trabalho. Mas, diante da minha indignação, aqueles poucos caracteres permitidos não me foram suficientes. Fui abordado pela orientadora pedagógica sobre meu rendimento com algumas turmas. Não nego aqui nesse espaço que em algumas dessas classes um grupo de apenas 10 ou 12 alunos tenham conseguido ficar acima dos 10 pontos necessários. Os que acabam de ler essa informação podem ter a impressão inicial que o professor é o grande culpado dessa situação. Temos, é claro, de estar atentos as atitudes de todos os professores, pois isso realmente pode acontecer. No entanto, visando uma defesa consistente e coerente com a realidade resolvi buscar os motivos de tão baixo rendimento dessas turmas. Ao analisar meus diários mais uma vez deparei-me com uma situação que chama bastante atenção. Boa parte dos alunos sequer entregam os trabalhos. Senhores, meu calendário de provas e trabalhos foi divulgado no início de maio, para eventos que ocorreriam apenas em junho. O estudo é algo que passa distante da prática cotidiana desses alunos. Não possuem qualquer tipo de responsabilidade por seus atos. Aliás, muitos não aprenderam isso em casa. A falta de uma postura mais rígida por parte do estado, da família e da própria escola encoraja os alunos para o contínuo culto a irresponsabilidade e ignorância.
Sabendo desses aspectos procuro ao longo dos meus 3 anos de sala de aula facilitar o máximo possível em minhas provas e trabalhos, justamente visando a cobrança por parte dos superiores. São provas cada vez mais ridículas e superficiais que exigem o mínimo de cada aluno. Estamos dentro de um sistema que privilegia o errado, o aluno que não estuda. Dessa forma, o indivíduo tem inúmeras chances para recuperar sua nota, e mesmo assim não o faz. Apenas para apreciação dos leitores demonstrarei agora como é o funcionamento da escola hoje em dia.
O aluno, dos dez pontos possíveis em um bimestre, é obrigado a tirar apenas a metade. Ou seja, cinco pontos em cada bimestre. Caso não consiga ele tem direito a uma prova de recuperação paralela em cada bimestre. Essa prova tem o poder de substituir a nota mais baixa. Em caso de insucesso, o aluno ainda tem a oportunidade de fazer uma recuperação semestral, geralmente em julho e dezembro, que permite que uma prova valendo dez pontos possa substituir a nota menor de dois bimestres. Caso ainda não consiga se recuperar, o aluno ainda pode ficar reprovado em 2 matérias, empurrando-as para o ano seguinte através das dependências.
Dessa forma senhores, não há como negar que a escola de hoje privilegia o irresponsável. A ânsia por aprovações em busca de verbas faz com que a escola facilite para o “incompetente” e deixe de trabalhar satisfatoriamente com aqueles que aprenderam em casa e no dia-a-dia o valor dos estudos para sua vida futura.
Depois dessa explicação, volto ao início do texto quando a orientadora pedagógica me abordara. O questionamento dela foi o seguinte: “Será que o senhor professor não está cobrando demais dos alunos?” “Quem sabe novas práticas dentro de sala poderiam aguçar a criatividade e atenção dos alunos?”. Veja, a profissional não pode ir direto ao ponto, precisa falar de modo indireto o que de fato ela precisa. Comprovamos, então, que os questionamentos da orientadora não tem qualquer intuito em viabilizar o aprendizado real dos alunos, mas apenas contribuir para que as notas estejam sempre acima de cinco pontos. Ou seja, se sou um professor ridículo que passo o tempo todo sentado sem dar aulas verdadeiras aos alunos, mas que ao final do bimestre todos estão acima da média, de fato sou um professor “nota 10”. Caso busque desenvolver um trabalho coerente com a prática de um verdadeiro profissional, é fato que diante da atual condição da escola e da juventude, os índices não serão satisfatórios para os governantes. Fazendo isso não serei um profissional digno de destaque.
A hipocrisia permeia os meandros educacionais. Somos forçados direta ou indiretamente a aprovar o maior número de alunos possíveis. É assim que o sistema funciona. O que fazer? Continuar com minha luta em favor do desenvolvimento real dos alunos, ou me entregar ao sistema? Acho que esse dilema faz parte da vida de boa parte dos profissionais de educação, que trabalham dentro de sala de aula.