domingo, 28 de novembro de 2010

Que o estado permaneça …

Tráfico-drogas-Rio

Parece não se falar em outro assunto nos últimos dias. A invasão da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão tem chamado atenção pelo fato de que representa, o que boa parte da população sempre quis ver. Finalmente o estado assume a responsabilidade e começa a, pelo menos aparentemente, botar ordem na casa.

Pelos comentários que pude ver na TV e na internet percebe-se que a população, diferentemente de outras épocas, vem apoiando incondicionalmente as ações do estado e parabenizando a polícia pelos seus feitos. Não é de se admirar. Afinal, há tempos que os brasileiros e principalmente os cariocas desejavam um Rio de Janeiro menos violento e perigoso. Constata-se, da mesma forma, uma certa agressividade da população para com os traficantes. Fato também passível de compreensão, pois nos últimos anos estes vêm demonstrando uma completa falta de respeito à vida humana.

O que chama a atenção é que boa parte das pessoas parece não se preocupar com o que virá depois que os confrontos cessarem. Devemos lembrar que a situação é crítica porque durante décadas o Estado se manteve ausente dessas regiões, cedendo áreas ao crime organizado. Parece-me coerente que para se manter o estado de paz na região o Estado precisará fixar sua presença, fornecendo elementos que jamais proveu a este seguimento da sociedade.

Devemos combater com rigidez os bandidos e traficantes de hoje. Isso é inegável. Mas não podemos deixar que as crianças que ainda estão por vir vivam em condições sub-humanas. Elas precisam crescer em um lugar com oportunidades, com justiça social. É inacreditável que em pleno 2010, no final da primeira década do século XXI, o brasileiro ainda não tenha se dado conta que não adianta querer #paznorio se ainda pudermos constatar a estúpida disparidade social carioca, que coloca frente-a-frente os afortunados e os marginalizados.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Falar de educação virou bordão?

Hoje, pela manhã, comentei no twitter que o Brasil necessita prioritariamente de uma REVOLUÇÃO na educação. É fato que o Brasil, mesmo diante da melhora em relação a anos anteriores, investe pouquíssimo na educação básica. A sensação em muitas escolas é que estas instituições se tornaram depósitos de pobres. São iludidos a pensar que estão se desenvolvendo e crescendo intelectualmente. E, mesmo que isso aconteça com uma minoria, a realidade da maioria que estuda em escola pública é o abandono e a sensação de que o futuro deles já está determinado e relacionado a tudo de ruim que podemos imaginar.

Um amigo, via Buzz, escreveu algo que serviu realmente como um tapa de luva para o que eu havia afirmado: Virou bordão: Brasil precisa de uma revolução na educação! Mas, ninguém diz como será feita esta revolução. Gostaria de saber em detalhes rs. E realmente, se pararmos para pensar bem, adoramos fazer a crítica mas não propomos soluções para esses problemas.

Não tenho a pretensão de promover qualquer revolução. Afinal, isso é algo que é fruto do trabalho e da reflexão de todos. No entanto, resolvi enumerar alguns dos problemas claros que vejo na educação atual e que se sanados poderiam amenizar os problemas.

  • Carga Horária x Salário: Há alguns dias atrás um amigo comentou que o professor ganha mal, mas tem duas férias no ano. Averiguava se realmente valia a pena. Eu, particularmente pensando a nível da minha realidade no Sul Fluminense, não vejo o professor ganhando tão mal. Acho que em alguns casos a profissão é até mesmo atrativa. No entanto, para que o professor consiga produzir uma remuneração mais elevada ele acaba tendo que apelar para uma elevada carga horária. O problema reside nesse aspecto. O professor deveria ganhar bem tendo poucas aulas, visando um trabalho mais consistente e a inserção em programas de formação continuada quando fora de sala. Afinal, estamos lidando com seres humanos que possuem suas particularidades. Pagar bem o profissional mantendo-o com poucas turmas obrigaria o poder público a contratar mais professores e ter mais gastos. Será que se habilitam?
  • Omissão da sociedade: Não devemos esperar dos menos favorecidos a luta por uma educação de qualidade. Vítimas de décadas de descaso, a alienação que lhes é peculiar nos os permite vislumbrar o que uma educação de qualidade os proporcionaria. A classe média que teria meios e condições de exigir tal melhoria, prefere abdicar de seu DIREITO e colocar seus filhos em instituições particulares. Quando aquele que tem condições retira o seu filho da escola pública deixamos essas instituições para aqueles que não sabem como exigir. O governo fica descompromissado de melhorar DE VERDADE a educação.
  • Bolsa Família e rendimento: O Bolsa Família é alvo de elogios e críticas no Brasil. Para muitos um programa excelente de distribuição de renda, mas para outros uma política assistencialista que visa apenas a obtenção de votos. No entanto, um dos grandes problemas do programa que passa despercebido para maioria das pessoas, é que tal renda é vinculada ao índice de frequência dos alunos. O Bolsa Família poderia ser vinculado não apenas a frequência mas também ao rendimento. Assim, muitos pais sentiriam-se na obrigação de colocar seus filhos para estudar ou buscar soluções para o baixo rendimento, uma vez que perderiam o benefício devido o problema. Atualmente, é comum encontrarmos pais que não ligam para o rendimento mas se atentam para que seu filho esteja sempre na escola.
  • Estrutura das Escolas: É bem verdade que as escolas de hoje não atraem o interesse dos alunos pelos estudos. São frias, sérias e tradicionais. O investimento pesado em recursos, muitos ligados à tecnologia, além da formação do professor, traria a possibilidade de aulas mais dinâmicas. Muitas escolas já possuem internet banda larga, data shows e etc. Mas o número insuficiente dificulta o planejamento dos professores para utilização de tais recursos. No Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, assistimos a instalação de dois aparelhos de ar condicionado por sala, mas sofremos com a disputa entre os professores pela utilização dos recursos tecnológicos disponíveis.
  • Aumento da responsabilidade dos pais: Uma das grandes queixas das instituições educacionais diz respeito ao desleixo dos pais e responsáveis para com a formação de seus filhos. É fato que a escola, que já não tem a devida estrutura, pouco poderá fazer enquanto as crianças não contarem com suporte em casa. Nessa perspectiva, o governo precisa encontrar mecanismos para induzir a maior participação dos responsáveis na vida escolar de seus filhos. Mesmo que haja pena para descumprimento. Afinal de contas, o abandono intelectual não pode se restringir àqueles que deixam de matricular seus filhos, mas também para aqueles que matriculam e esquecem suas crias na escola.

Enumerei cinco questões que julguei cruciais para melhoria efetiva da educação. Evidente que esses problemas estão interligados e são apenas a ponta do iceberg. São inúmeros os problemas da educação que dão margem para uma discussão longa sobre o assunto. Todavia, investimentos pesados são necessários. Algo muito diferente de tudo que já vimos até hoje. Mesmo que muitos do governo afirmem que nunca se investiu tanto em educação como no atual mandato, temos de lembrar que qualquer melhora ocorrida foi insuficiente para reverter ou mesmo amenizar o quadro de abandono em que se encontra o setor.

Uma pena que um tema tão importante seja vítima da disputa eleitoral entre PT e PSDB. Num mundo de sonhos seria ideal que os dois partidos vislumbrassem a ideia de que a educação é a chave, e que sem ela o Brasil não vai pra frente.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Valores religiosos em uma educação “laica”

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Essa semana o questionamento de uma aluna me intrigou. Ao saber de meu agnosticismo – quase ateísmo – assumiu postura prévia de repúdia e descontentamento. Quis saber de qualquer forma como eu conseguia negar a “presença” de Deus sendo que ela o sentia intensamente. Além disso, acusou com veemência as correntes científicas e históricas por serem responsáveis pelo afastamento daqueles que estudam do “verdadeiro Deus”. Ao tentar mostrar a ela que o cristianismo era apenas uma visão de mundo e não “a visão”, a resposta vinda de supetão, afirmava certeza na veracidade única da Bíblia e do seu Deus em relação a livros como o Corão, ou demais valores orientais como os do budismo, hinduísmo ou confucionismo.

Assustou-me a constatação que mesmo diante de um mundo cada vez mais voltado para pesquisas e descobertas científicas, tenhamos jovens com pensamentos tão limitados, moldados desde pequenos por crenças que manipulam, alienam e forjam uma versão da “verdade”. São raciocínios como esses que propiciam o preconceito, a intolerância e o ódio para tudo aquilo que soa diferente. Caracterizam-se, inclusive, como combustível principal dos principais conflitos religiosos no mundo.

Não venho aqui culpar as instituições religiosas. Com todos os defeitos que possuem estão ali para aquele propósito e delas não podemos esperar nada diferente. Culpo as instituições do Estado ditas “laicas”, que indiretamente contribuem para permanência de valores religiosos que deveriam estar restritos a igrejas. A escola, exemplo emblemático desse processo, ainda permanece com um corpo de profissionais mais ligados a conceitos religiosos do que as descobertas científicas. Professores de biologia, geografia e história ensinam conceitos científicos como se fossem meros conteúdos para prova. Não mostram a relação dessas pesquisas com a realidade. Assistimos atônitos, a inserção de matérias como ensino religioso em escolas do Rio de Janeiro, ou mesmo a propagação de imagens religiosas pelos prédios do Estado.

Penso que os valores religiosos podem e devem ser difundidos em igrejas. Mas nas instituições laicas, constitucionalmente, são os valores científicos que devem valer. O modelo atual ainda insiste em oferecer uma versão de mundo para os jovens que estão se desenvolvendo. Richard Dawkins ao falar de religião e infância faz uma consideração bastante pertinente, no sentido de afirmar que não existem crianças católicas, mas crianças com pais católicos. Devemos trabalhar nesse sentido. Cabe a cada indivíduo inserido nesse mundo de múltiplas ideias formar a sua opinião respeito, optando por crer em algo pré-estabelecido ou buscando a sua versão para explicar o mundo.