quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Não vou mais assinar …

Algumas coisas curiosas, pequenos detalhes, ocorrem no dia-a-dia em sala de aula e podem nos mostrar algumas características de muitos pais da atualidade. Após solicitar inúmeras vezes para que a aluna guardasse seu celular, uma vez que estava em um momento de execução de tarefas, tive de tomar uma medida que a cada ano se torna menos frequente em minhas práticas. Resolvi retirar a aluna de sala, mediante ocorrência e confisco do aparelho. A essa altura a aluna resolve soltar uma frase que considero no mínimo curiosa: “Minha mãe disse que não assina mais nenhuma ocorrência”.

Considero uma atitude bastante coerente do responsável em questão. Coerente com a provável educação omissa a que essa criança esteve submetida. Não mais assinar as ocorrências demonstra que a mãe prefere se abdicar de sua função. Já não se preocupa com a atitude da filha e prefere ignorar esse fato. Como se essa simples omissão resolvesse seus problemas. Dá até para imaginar a mãe dizendo “Já tenho problemas demais…”

Ainda é preciso salientar que tudo que envolve os filhos são de inteira responsabilidade dos pais? Ainda é necessário lembrar aos responsáveis que uma vez menores de idade, são eles que respondem legalmente? Até quando teremos de lembrar que a escola não pode assumir isoladamente a função da formação cidadã?

Concordo que as escolas precisam melhorar. Ainda estão muito aquém do ideal. Mas não é justo aceitar que (ir)responsáveis abram mão de suas atribuições deixando tudo a cargo do Estado. Se queremos uma educação de qualidade é preciso fiscalizar ambos os lados. Como disse, escolas e responsáveis tem o papel conjunto na formação cidadã de um indivíduo.

Quando preferimos ignorar a realidade

Quem me conhece de verdade sabe que mesmo sendo cético possuo certa admiração por determinados religiosos, tidos de certa forma como progressistas. Religiosos como Frei Betto e Leonardo Boff demonstram através de seus estudos, a possibilidade de crença numa possível força sobrenatural, sem se abdicar do senso crítico e da análise racional de fatos. Os dois pensadores citados, por exemplo, desenvolvem sua teologia sem excluir os inúmeros estudos e dados científicos comprovados através de evidências.

Dessa forma, possuindo tais características já foram capazes de combater boa parte das sandices veiculadas até hoje pela igreja católica. Não há, inclusive, o espanto em saber o fato de que ambos foram excomungados pela mesma. Como se isso fosse importante.

Quando me deparo com religiosos que possuem como característica o senso crítico e alguns lapsos de pensamento racional, tenho imenso prazer em não só discutir como aceitar a sua crença. Afinal de contas, não precisamos questionar a sua fé se de fato ela funciona como um acalento para a falta de respostas, sobre questões referentes a existência.

Todavia, quando sou abordado por religiosos que preferem ignorar as descobertas científicas que não foram escritas a esmo, mas sempre pautadas em evidências e constantes confrontos de novos estudos, para mergulhar inconsequentemente em preceitos religiosos, escritos há milênios sem qualquer tipo de comprovação e cheias de contradições, faço questão de me ausentar desse embate. Ausento-me porque são pessoas fechadas em seus dogmas, voltadas a ignorância e relativo desprezo a outras vertentes religiosas. Pergunte a um católico “xiita” o que ele acha do islamismo, do budismo ou do xintoísmo. Ou mesmo, observe o desdém a que um vulgo “evangélico” se refere ao catolicismo.

Além disso, são pessoas presas no tempo. Norteiam suas vidas em valores arcaicos e que se pautam no zeitgeist de um tempo remoto. Assuntos extremamente relevantes ao desenvolvimento sadio da sociedade, como o direito ao aborto, os estudos com células tronco embrionárias, a legalização das drogas e a união estável homoafetiva, são vistas como abominações. É por isso, diga-se de passagem, que valores religiosos não devem ser levados em consideração para decidir os rumos de uma sociedade, com aspectos tão plurais como as de hoje.

Encerro com uma frase sabiamente utilizada por meu sobrinho em uma conversa no facebook, de autoria de Carl Sagan “…Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências… Baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar”.

Vale a reflexão …

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Além do ateu e do ateísmo - Beyond the Atheist and Atheism




Fonte: Plongée Produtora
Roteiro, Produção e Direção: Carine Immig e Fábio Goulart
Apoio: Curso de Comunicação Social – Unisc e Unisc TV

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Reorganizando as ideias

Volta e meia somos obrigados a reorganizar nossos arquivos e pastas no computador. Muita coisa que antes era importante já não se justifica e, no final das contas, é sempre bom um pouco de organização e espaço em nossos discos rígidos. De qualquer forma, em meio aos arquivos desnecessários eis que surgem dois textos ainda muito pertinentes. Os textos “Esquecendo Deus” e “O papa e o profeta”, ambos de Hélio Schwartsman, foram e ainda são fundamentais para todos aqueles que buscam uma visão diferente daquelas que geralmente temos contato. É inegável que a leitura citada em muito contribuiu para a visão crítica que possuo acerca do tema. Seria uma lástima se não compartilhasse com todos vocês.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O pensamento racional como finalidade

É notório que muitas pessoas que conheço, principalmente aquelas restritas ao âmbito virtual, creditam minhas características intelectuais, aos conceitos que envolvem o ateísmo. Ou seja, sou o que sou hoje porque sou ateu. É difícil para a maioria constatar que o ateísmo não é a causa de minhas reflexões, mas a pura consequência disso.

Usar o pensamento racional, a lógica e a metodologia científica para entender o mundo, e tudo aquilo que nos circunda nos leva quase que por tabela ao extremo ceticismo. Tudo passa a ser pautado em evidências e método. 

No entanto, o ateísmo não é objetivo central. Mesmo parecendo para muitos que meu ativismo se dá no sentido de angariar mais céticos para causa, cabe destacar que a finalidade principal tem relação à difusão do pensamento racional. 

Uma sociedade baseada na razão e no ceticismo nos possibilitaria uma vida sem preconceitos. Tornaria possível o raciocínio crítico para as mais variadas causas do cotidiano, sem as amarras dogmáticas de determinadas instituições. Estaríamos menos sujeitos a falcatruas e com um olhar mais clínico, para todo tipo de eventos que viessem a confrontar a ética e a cidadania.

Ao ser questionado sobre dogmas, crenças e teorias sobre o mundo, jamais tento levar os alunos ao ateísmo. O pensamento racional por si só levará o indivíduo a questionar tudo aquilo que ele sempre acreditou. No final, cada indivíduo dependerá de si próprio para determinar até que ponto ir. E esse, meus caros, é o grande barato da coisa.

Sejamos racionais...

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A defesa do direito ao aborto

Há algum tempo venho me prometendo um post a respeito do aborto. Tentei em outra oportunidade mas a falta de embasamento para algumas ideias tornava árdua a tarefa proposta. Mas, eis que surge um texto primoroso a respeito. Leonardo Sakamoto, no qual diga-se de passagem possuo uma grande admiração, nos presenteia com um texto claro e objetivo. De modo racional, ilustra os motivos que justificam a defesa ao direito do aborto.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Homofobia como parte do currículo

Como de costume, os dias que antecedem ao retorno dos alunos é destinado à discussões pedagógicas e análise de resultados. É hora de decidir quais serão as estratégias para o alcance das metas propostas e também para socialização dos professores.

Nessa temática, os profissionais da educação buscam dividir as aflições, os medos e as práticas de sucesso. Contudo, é nesse momento que evidenciamos um sem número de visões deturpadas, pautadas no preconceito e na completa ignorância.

Um dos professores levantou como sendo uma questão problemática o aumento do número de homossexuais na instituição. Bastou que o tema fosse levantado para que boa parte dos demais profissionais expressassem seus pensamentos rasos e sem sentido. Permita-me a ousadia Abner de Paula, mas usarei uma expressão utilizada em seu último artigo, que muito bem se emprega nessa situação: 

"Homossexualidade não é escolha, é condição do indivíduo."

Os inúmeros estudos científicos sobre o caso comprovam a afirmativa do autor citado. A homossexualidade é algo natural ao ser humano e é entristecedor constatar que ainda tenhamos de explicitar isso. Absurdo analisar que caráter e ética são temas de pouca importância e que ainda hoje as pessoas são julgadas por sua orientação sexual, etnia ou crença (ou ainda falta dela).

Mais estarrecedor é a constatação de que é na escola, onde deveríamos ter profissionais aptos para difundir o conhecimento científico e a erradicação de qualquer tipo de preconceito, que a homofobia se faz presente. Tenho pena dos inúmeros estudantes que caem na armadilha do estereótipo, característica do preconceito, e que não podem exercer sua cidadania como reza a nossa constituição. 

É lamentável ainda que diante da minha indignação, alguns colegas de trabalho tenham tido a pobreza de relacioná-la a uma possível homossexualidade. Nessas horas bate um vazio por estar, pelo menos aparentemente, sozinho na luta contra o preconceito e na defesa do direito de ir e vir do cidadão.

Em certas ocasiões tenho vergonha de ser professor.